Notícia 24/01/2017

Delfim: Mudança no Brasil, nada de novo em Davos

O homem é apenas um dos resultados do processo evolutivo da natureza. Um produto tão bem-sucedido e arrogante, que se acreditou fora dela e chamou, a si mesmo, de "sapiens, sapiens". Apesar de toda essa pretensão, tem, como qualquer outra espécie, que conquistar sua subsistência no intercurso da sua atividade - o trabalho. No que difere, afinal, do macaco-prego, que "aprendeu", por acaso, que utilizar uma pedra para quebrar uma semente dura, aumenta a oportunidade de sua sobrevivência? Apenas 40 milhões de anos do processo evolutivo, em que construiu a sua inteligência, aparentemente, ilimitada. Com ela, "inventou" instrumentos que aumentaram a produtividade da sua intervenção sobre a natureza. A história dos homens e do seu sucesso como espécie resume-se na descoberta de que a cooperação entre eles e a cristalização do trabalho passado na forma de bens intermediários de produção aumentam a produtividade do trabalho vivo. Se deixarmos de lado arengas metafísicas e chorumelas ideológicas, será absolutamente evidente que um indivíduo só poderá dispor de mais bens e serviços, numa convencional unidade de tempo, na exata medida em que aumentar a produtividade do seu trabalho, ou possa beneficiar-se do trabalho de outro que a tenha aumentado. A simples redistribuição dos resultados, entretanto, não aumenta a produtividade "média", isto é, não aumenta a disponibilidade total de bens e serviços para os dois. É preciso introjetar uma verdade elementar e intransponível: não importa quão complexa seja a sociedade em que vivem, os indivíduos só terão mais bens e serviços à sua disposição, numa convencional unidade de tempo, à medida em que crescer a produtividade média do seu trabalho no uso da natureza, que é finita! Já é tempo de ter claro que a sociedade "civilizada" não será produzida nem pelo programa do Manifesto Comunista, de Marx e Engels (1848), nem pelo sugerido pelas encíclicas Quadragésimo Ano, de Pio XI (1931) e Laudato Si, de Francisco (2016), e muito menos pelo pensamento "politicamente correto" de alguns generosos mas desinformados cérebros peregrinos. Ela está sendo construída, na prática, aos trancos e barrancos, num processo evolutivo que funciona há mais de 150 mil anos, desde que os homens deixaram a África para ocupar o mundo. A história se acelera exponencialmente, devido àquela mesma inteligência. Um avanço tecnológico da informação e o seu baixo custo permitem, hoje, uma coordenação social espontânea e instantânea (sem o controle do poder organizado tradicional!) que deu ao cidadão comum um poder inimaginável até há poucos anos. Sua principal consequência será ampliar o vigor do sistema democrático, com óbvias vantagens e potenciais problemas. A reforma da Previdência tem intenção republicana O desconforto que hoje toma conta do mundo é, em parte, consequência de erros lamentáveis produzidos por uma perversão ideológica do liberalismo econômico que se instalou nos EUA no início dos anos 80 do século passado. O resultado foi algum desenvolvimento econômico, mas um aumento inaceitável da concentração dos seus benefícios. Agora, mais empoderada, a sociedade exige que a liberdade de iniciativa seja regulada e acompanhada do aumento da igualdade distributiva. Voltemos à Terra: Brasil, 2017. O que o governo Temer está propondo à sociedade se não, exatamente, o aumento da produtividade média do trabalho? Aprovou no Congresso uma pequena revolução: o controle das despesas, o que parecia impossível diante da reação feroz do corporativismo que preda o Estado brasileiro. Ousou apresentar uma reforma da previdência que, no longo prazo, tem intenção republicana. Aprovou o projeto que institui a Base Curricular Nacional, abandonada no Congresso há 20 anos. Tenta estimular os investimentos em infraestrutura com a Medida Provisória 752, que precisará, respeitando a lei, de uma interpretação pragmática. Estimulou e sancionou a Lei das Estatais. Apoiou a aprovação da Lei Serra, que aumentará o apetite dos investimentos privados no setor de petróleo (como acabamos de ver no México). Com seu suporte, o Banco Central ancorou as expectativas de inflação e, agora, prepara-se para um maior protagonismo na solução do problema da alavancagem de crédito que nos aflige. Colocou em discussão uma modernização da legislação trabalhista que equilibra a força das partes na busca dos seus interesses. Instituiu um grupo de trabalho para ajustar à nova realidade a lei de falência. Aumentou, recentemente, a sua preocupação com medidas microeconômicas que reduzem a burocracia. Não foi pouco diante das vicissitudes políticas que vivemos! Como ele mesmo afirmou e todos esperam, o seu governo continuará a rejeitar a "feitiçaria" e prosseguirá nas reformar "estruturais" que facilitarão a vida do poder incumbente que se elegerá em 2018. Finalmente, acalmem-se: não há nada de novo em Davos! Apenas o tardio reconhecimento da cegueira política produzida pela miopia social gestada com a conivência de algum "sapiens, sapiens, homo economicus". Ele vendeu aos governos e às instituições internacionais que era portador de uma "ciência" e, logo, nada tinha a ver com os valores da sociedade.

Fonte: (Antonio Delfim Netto - Valor Online)

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