Notícia 24/03/2017

SC: Maternidade, a culpa é de quem?

A maternidade do Hospital Santa Cruz reabriu na última semana, após 12 dias fechada por falta de profissionais 
Há duas semanas, a maternidade do Hospital Santa Cruz interrompeu o atendimento e fechou as portas, o que seria para, ao menos três gestantes canoinhenses, um de seus maiores pesadelos. Ao chegar na maternidade na madrugada do dia 02 de março, nenhuma delas esperava passar pela situação relatada. Mesmo em trabalho de parto, as três não conseguiram dar a luz aos seus filhos no HSCC, visto que os médicos pediatras se recusavam a realizar o acompanhamento durante o procedimento e após o nascimento da criança – condição exigida para a liberação de partos no hospital. A maternidade encerrou suas atividades por volta das 8h da manhã. Até o dia 03, quando uma das gestantes finalmente conseguiu ter seu filho no Hospital São Lucas de Major Vieira, ela e outras duas gestantes tiveram que ser encaminhadas até Mafra – onde apenas uma das grávidas foi aceita -, retornaram em seus carros próprios e precisaram buscar outras alternativas para proporcionarem o nascimento de seus filhos. 
Após doze dias, a maternidade do Hospital Santa Cruz de Canoinhas voltou a atender de forma normal. Segundo o diretor administrativo do HSCC, Derby Fontana Neto, o atendimento foi suspenso devido à reivindicações dos médicos pediatras em contratar mais um profissional para fechar a escala de horários na maternidade. "Para não tomar uma proporção muito grande, nós resolvemos reabrir o serviço apenas quando estivesse certo", afirma. Derby relata que o motivo para não ter contratado o profissional antes foi a falta de médicos com esta especialidade disponíveis no mercado. "Não conseguimos um pediatra para fazer um dia por semana. Ninguém vem de fora para fazer um dia", afirma. O pedido dos médicos pediatras, no entanto, estava em pauta desde dezembro de 2016. 
Durante o período em que a maternidade não disponibilizou atendimento, Derby afirma que a direção do hospital e a Secretaria de Saúde do Município estiveram reunidas para resolver o problema. '"O hospital e a Secretaria de Saúde trabalharam juntos para resolver o problema, tanto é que quando nos unimos para resolver já demonstra que o problema é comum. Mas, realmente, quem perde é a população, gestantes e bebês". A solução foi contratar uma médica pediatra de outro município, que cumprirá quinze dias de sobreaviso médico na maternidade por mês. Durante esta escala, a médica fica disponível para atendimentos em caso de parto, tendo que se deslocar ao hospital apenas se for chamada. "Tem que compensar para o profissional. Por isso estamos trazendo quinze dias de sobreaviso", relata. 
A necessidade de um quarto médico pediatra teria surgido em decorrência de contratos dos profissionais com outras instituições. Como os médicos não são funcionários do quadro do hospital, mas sim contratados da instituição, isso possibilita que eles prestem serviços a outras empresas, por exemplo. Já na especialidade de obstetrícia, os médicos trabalham em escala de plantão, contando com sete profissionais com carga horária de 24 horas cada. Atualmente, o hospital conservou dois médicos pediatras que já prestavam serviços para a instituição, além da nova profissional. Segundo Derby, apesar de manter o mesmo número de médicos anterior, houve consenso entre a equipe devido ao acordo de sobreaviso com a nova profissional, de modo que os outros dois médicos dividam os quinze dias restantes de atendimento. 
RESPONSABILIDADE 
 Derby afirma que o hospital e a prefeitura não buscaram um culpado, mas sim uma solução do problema na maternidade. Ainda assim, o problema abriu brecha para questionamentos populares sobre quem seria o responsável por resolver a situação da maternidade. Nas redes sociais, nomes de pessoas ligadas ao executivo municipal, vereadores, funcionários do hospital, entre outros, foram atribuídos a situação. Segundo Derby, o Hospital Santa Cruz não se trata de uma instituição pública, mas sim, um órgão que presta serviços ao Sistema Único de Saúde (SUS). "A prefeitura é a gestora do SUS no município. O hospital é o prestador de serviços para o SUS da região, então a prefeitura tem um contrato de atendimento. Esse é o vínculo que nós temos", afirma. 
A vereadora e assistente social efetiva da Secretaria de Saúde do município, Zenici Dreher, conta que, por meio do contrato, o Fundo Municipal de Saúde (com recursos municipais, estaduais e federais) repassa valores que são destinados ao pagamento de médicos e outros funcionários, por exemplo. Segundo Derby, atualmente, cerca de 86% dos atendimentos do HSCC são realizados a pacientes do SUS. Por meio deste contrato, o HSCC tem de garantir "plantão presencial 24h com médicos na especialidade de ginecologia/obstetrícia", que são disponibilizados não apenas no parto, mas também para outras situações clínicas. O internamento e o contrato de sobreaviso de especialidades também é uma das garantias estabelecidas em contrato com o hospital. 
Já os serviços ofertados pelo município envolvem a emergência, veículos e equipes de enfermagem: "Quando o serviço é interrompido, o município coloca à disposição o SAMU através do número 192, a equipe da UPA 24h, ambulâncias, motoristas, técnicas de enfermagem, para, após a avaliação do médico plantonista, encaminhar da melhor forma possível", conta Zenici. 
PERÍODO PARALISADO 
 Derby afirma que durante o período em que a maternidade ficou paralisada, as gestantes tiveram atendimento na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) e na maternidade Catarina Kuss, Mafra. Segundo o relato de gestantes que foram encaminhadas ao município vizinho, no entanto, o atendimento na maternidade foi recusado. Em entrevista ao site JMais, a diretora da maternidade, Célia Saliba, afirmou que a gestante em questão não estava em trabalho de parto. 
Derby também contou ao CN que, durante o período, partos foram realizados na UPA pelos médicos de plantão. O diretor do HSC, no entanto, não soube informar se estes partos foram acompanhados de um médico pediatra, visto que esta era uma exigência para a realização do procedimento na maternidade. "Nós deixamos o hospital disponível para a equipe, não colocamos em risco as gestantes. Fizemos uma operação de emergência para que isso não trouxesse problemas para ninguém", afirma. 
O diretor da HSC afirma que, mesmo com a maternidade fechada, a solução de utilizar a UPA como modo de atender as gestantes foi a mais próxima legalmente para não deixar a população sem atendimento. "Legalmente e tecnicamente não havia condições para se exercer a função dos profissionais. Mas eles ficaram nas funções de emergência e urgência em que se atende em qualquer condição. Quando há emergência não se olha maternidade fechada", conta.  

Fonte: (Correio do Norte)

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