Notícia 27/01/2021

Quando o impacto da vacinação será percebido no Brasil?

 Analistas destacam que baixo ritmo da campanha de imunização, tamanho da população e uso de vacinas de menor eficácia podem atrasar objetivo.
Com o início da aplicação das primeiras injeções contra a covid-19 no país, uma dúvida emerge: quando o impacto da vacinação no controle da pandemia será notado? Para três analistas consultados por GZH, isso só deve acontecer quando for ampliada a cobertura vacinal de idosos e profissionais da saúde, os mais suscetíveis a casos graves da doença.
Há vários fatores a serem considerados nas estimativas de quando a pandemia perderá força: a campanha de vacinação está em ritmo baixo, há atrasos por falhas na logística (como a demora para obter o ingrediente farmacêutico ativo, o IFA), a população brasileira é grande, há mutações do vírus que podem reduzir a eficácia das vacinas e as imunizações compradas pelo Ministério da Saúde são de menor eficácia – é necessário, então, aplicar doses em mais pessoas para alcançar algum benefício na comunidade.
Na prática, analistas destacam que, no início, a tendência será de queda no número de hospitalizações e de mortes, uma vez que os primeiros vacinados são os que correm mais risco de vida e estarão protegidos. Depois, conforme a campanha englobar mais brasileiros, o número de casos cairá.
— Eu diria que, para ter algum efeito, precisamos de pelo menos 30% da população imunizada. Não é um número definitivo, mas a conta é que, se tem 11,3 milhões de gaúchos, precisamos de uns 3 milhões de vacinados para começarmos a perceber uma diminuição importante na circulação — analisa o médico Pedro Hallal, professor de Epidemiologia na Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e coordenador da maior pesquisa do mundo sobre a prevalência de coronavírus na população, a Epicovid.
A projeção de Hallal conversa com a estimativa citada pela chefe da Vigilância Epidemiológica da Secretaria Estadual da Saúde (SES), Tani Ranieri. Em entrevista a GZH na segunda-feira (25), ela projetou que os efeitos da vacinação na curva epidemiológica do Rio Grande do Sul poderão surtir efeito quando 70% dos grupos prioritários forem vacinados. Como há 4,1 milhões de pessoas nesse contingente, seria o equivalente a 2,87 milhões de gaúchos.
Até o momento, o Rio Grande do Sul vacinou 93,4 mil pessoas. No caso do Brasil, a estimativa exigiria vacinar 63 milhões de pessoas – até agora, mais de 750 mil pessoas foram imunizadas.
A projeção de 30% da população imunizada não deve ser confundida com a estimativa de 70% de vacinados necessários para atingir a imunidade de rebanho, cogitada no ano passado. A porcentagem maior proveria um “cobertor vacinal”, o que, em tese, acabaria com a transmissão e colocaria um fim à pandemia. Já os 30% representariam um patamar para os primeiros efeitos da vacinação começarem a ser sentidos.
Precisamos chegar a um número mágico: vacinar 2 milhões de pessoas por dia. Quando isso acontecer, vacinaremos toda a população brasileira em cem dias e aplicaremos a segunda dose em 200 dias. Se fizermos isso, entraremos no rumo certo para chegar ao meio do ano com uma grande quantidade de vacinados
— Precisamos chegar a um número mágico: vacinar 2 milhões de pessoas por dia. Quando isso acontecer, vacinaremos toda a população brasileira em cem dias e aplicaremos a segunda dose em 200 dias. Se fizermos isso, entraremos no rumo certo para chegar ao meio do ano com uma grande quantidade de vacinados. Não sei se chegaremos a isso, as informações atuais inclusive não permitem, o governo jogou fora 70 milhões de doses da Pfizer, mas tenho expectativa de que o Brasil retomará o espaço como referência mundial em campanha de vacinação — afirma Hallal.
Israel, país cuja campanha de vacinação é tida como exemplo, imunizou 40% dos 8,8 milhões de habitantes cerca de três semanas após a primeira aplicação. Segundo dados do Ministério da Saúde local analisados pela empresa Maccabi Health Services, a queda nas hospitalizações por coronavírus foi de 60% em um intervalo de 23 dias após a primeira dose da Pfizer e dois dias após o reforço, reportou o jornal The Times of Israel.
— A vacinação no Brasil está devagar. Com o atraso do ingrediente farmacêutico ativo, só terminaremos de vacinar os primeiros grupos prioritários em abril, já que a Fiocruz estimou começar a entregar as doses em março. Vacinando com cobertura alta os dois primeiros grupos, de profissionais da saúde e idosos, reduziremos óbitos mais rapidamente. Depois, quando você amplia a vacinação para outros grupos, continua tendo melhoria em óbitos, mas também em casos — afirma o médico Guilherme Werneck, vice-presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) e professor de Epidemiologia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).
O sucesso de Israel pode estar associado ao fato de que a pandemia estava melhor controlada no país (vigora um lockdown) e ao uso da vacina da Pfizer, que tem 95% de eficácia. O Brasil só fechou acordo para usar a CoronaVac, com eficácia de 50,4% no geral e potencial de redução de 78% dos riscos de hospitalização, e a vacina de Oxford, com 70% de eficácia.
A diferença na taxa afeta o controle da pandemia: um imunizante que confere menor proteção exige que o governo aplique doses em mais pessoas para garantir mais indivíduos com anticorpos.
É por isso que Hallal cita que “para a proteção individual, injetar CoronaVac, Oxford ou Sputnik não muda nada, porque a pessoa estará protegida contra as formas graves, mas, para a proteção coletiva, faz grande diferença ter uma vacina de maior eficácia”.
— Se tenho uma vacina como a da Pfizer, com 95% de eficácia, basicamente todo mundo fica com anticorpos, portanto, preciso vacinar menos pessoas para ter 70% da população protegida (para alcançar a imunidade de rebanho e acabar com a pandemia). Mas, com a CoronaVac, a imunidade coletiva vai demorar mais a se formar. Por outro lado, tem vantagens em termos de armazenamento — acrescenta Hallal, já que o produto da Pfizer precisa ser mantido a -70ºC.
Não se sabe se as vacinas impedem que uma pessoa, apesar de protegida contra formas graves, infecte outros indivíduos. Mas, pela lógica, a campanha de imunização reduzirá a circulação da covid-19 ao impedir hospitalizações e mortes, explica Guilherme Werneck, da Abrasco.
— A vacina diminui as formas mais graves, e são essas que transmitem mais. Existe uma relação entre sintoma e transmissão. O cara que é assintomático transmite, mas menos do que o sintomático. Quanto mais sintomático, mais transmite. Se a vacina reduz a forma grave da doença, também reduz a transmissão — afirma.
Acompanhe o avanço da vacinação pelo mundo
Outra preocupação diz respeito ao risco de mais mutações do Sars-Cov-2 surgirem, o que pode arriscar o sucesso da campanha de vacinação, observa o médico Eduardo Sprinz, chefe da Infectologia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre.
— Dependendo da quantidade de mutações de uma variante, talvez uma vacina não seja mais protetiva. A variante de Manaus abriga diversas mutações. Não sabemos ainda como as vacinas que existem hoje em dia se comportarão contra essa variante. Pfizer e Oxford informaram que são eficientes contra a variante do Reino Unido, mas não sabemos o que acontece contra a variante de Manaus — diz Sprinz. — Se a gente conseguir logo produzir, e não só comprar, vacinas em larga escala, talvez comecemos a observar um resultado positivo para o final deste semestre — conclui.
Quem pode se vacinar
Com o número bastante reduzido de doses disponíveis no Brasil neste primeiro momento da fase 1 do Plano Nacional de Imunização (6 milhões em todo o país, 340 mil no RS), a prioridade para receber as doses é dos profissionais da saúde que atuam no atendimento de pacientes com coronavírus, idosos que vivem em lares de longa permanência ou acima dos 75 anos e indígenas. Ainda não há vacinação aberta em postos de saúde para demais pessoas previstas nos grupos prioritários. 

Fonte: (Marcel Hartmann - Gaúcha ZH)

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