Notícia 08/05/2017

França: Vitória de Macron é refundação da Europa

Primeiro-ministro do presidente conservador Jacques Chirac de 2002 a 2005, Jean-Pierre Raffarin vê na vitória de Emmanuel Macron uma "refundação" da União Europeia e um refluxo nas forças contrárias ao bloco. 
Ele, que caiu após o fracasso de seu governo de convencer os franceses a aprovarem em referendo uma Constituição europeia, em 2005, acredita que o pico de insatisfação com o bloco foi com o "brexit", no ano passado, e que um "novo processo está sendo ativado". 
Senador, ele apoiou Macron no segundo turno e defende as reformas liberais que o novo presidente promete realizar, embora levante dúvidas sobre no que o eleito de fato acredita. 
Raffarin aposta em um bom desempenho de seu partido, Republicanos (centro-direita), nas eleições legislativas de junho para influenciar o novo chefe de Estado francês. 
Folha - O que o sr. espera da presidência Macron? 
Jean-Pierre Raffarin - Para começar, será um rejuvenescimento. Nunca a república francesa, ao menos em seu período recente, teve um presidente tão jovem. Internacionalmente, mostra a modernidade da França. Também se deve esperar um reposicionamento da política francesa em que a centro-direita e a centro-esquerda vão cooperar. 
É de se esperar que se unam no Legislativo republicanos, socialistas e o Em Frente! de Macron? 
Penso que haverá um número de deputados de centro-direita e de centro-esquerda que trabalharão juntos. Não vai ser uma iniciativa global de todo o Partido Socialista ou de todo o Republicanos, mas de um grande número de parlamentares. 
O sr. vai apoiar o governo? 
Se suas orientações se confirmarem, se sua equipe de governo for equilibrada, haverá um interesse nacional em ajudar. Isso não quer dizer um apoio automático e sistemático, mas para todas as grandes reformas que fizerem o país progredir. 
Entre elas trabalhista e previdenciária? 
Essas são reformas que será necessário apoiar, penso eu. 
Enquanto isso, o Em Frente! trabalha para construir sua maioria na Assembleia Nacional tirando cadeiras de republicanos e socialistas. 
Em geral, as eleições legislativas na França confirmam a eleição presidencial. O Em Frente! deve ter bons resultados. Dito isso, tudo é possível nesse período de um mês entre as eleição presidencial e a legislativa. Podem haver acontecimentos exteriores ou erros políticos da equipe no poder que conduzam a enfraquecer o Em Frente!. 
Então é possível haver uma vitória dos Republicanos, o que conduziria a uma coabitação, como dizemos aqui. Ou seja, ao lado do presidente Macron, um governo liderado pela oposição dos republicanos. Os republicanos farão todo o esforço necessário para serem os mais numerosos possíveis no Parlamento e poder assim pesar na política de Macron. 
Como o sr. vê a eleição do primeiro presidente de tendência liberal na França em tantos anos? 
Se ele for um presidente liberal, faço parte dos que no Republicanos veem isso com bons olhos. O problema hoje é que não sabemos muito bem quais são os eixos do futuro do governo Macron, pois ele não tem experiência política que nos indique suas escolhas principais. Ele é um desconhecido. Mas se sua política for de reforma e de aspiração liberal, faço parte dos que o apoiarão. 
Como lidar com o relevante eleitorado de Le Pen e seu rancor em relação ao novo governo? 
Vimos que Le Pen sabia denunciar os problemas da sociedade francesa, principalmente o desemprego e a insegurança, mas que não tinha soluções. Tudo isso abre um campo de iniciativa a Macron. Se ele colocar todas suas forças nesses dois temas, pode construir um diálogo com uma grande parte do eleitorado de Le Pen, que está ligado à solução de problemas, e não só a ela. 
Como seu partido e os socialistas conseguiram ser derrotados ao ponto de nenhum dos dois chegar ao segundo turno este ano? 
Fomos vítimas da campanha sobre os assuntos ligados a [François] Fillon [acusado de empregar a mulher como funcionária fantasma em seu gabinete] e, quando designamos um candidato e ele se encontra mal conduzido na campanha perdemos muita influência e capacidade de convencer. 
Por que a estratégia de barrar a Frente Nacional não funcionou este ano com a mesma força de 2002, quando Chirac venceu Jean-Marie Le Pen por 82% a 18%? 
Em 2002, ficamos surpresos e aturdidos pela presença de Jean-Marie Le Pen no segundo turno. Foi um choque. A presença de Marine Le Pen 15 anos depois está anunciada há muitos meses e foi um pouco banalizada. Não existe mais o sobressalto que superou todas as divisões à época. 
Desde que a Constituição europeia foi rejeitada pelos franceses, em seu governo, acumulam-se episódios de desconfiança sobre o bloco. Por quê? 
Ela cresceu até o "brexit", sentimos que houve um pico de contestação em toda a Europa no momento da saída do Reino Unido. A Europa foi julgada burocrática, ineficaz, principalmente quanto a crescimento e controle da imigração. Mas acho que um novo processo está sendo ativado. 
De um lado, as guerras pelo mundo lembram a necessidade da Europa para se fazer a paz. Do outro, o "brexit" veio com a depreciação da libra e o risco de desconstrução da Europa. 
Penso que o pico da contestação foi mais no ano passado do que agora. Nessa campanha, a mensagem europeia, principalmente graças a Emmanuel Macron, existiu concretamente e fortemente. Penso que a vitória de Macron significará uma refundação da Europa e do diálogo franco-alemão por ela. 
Qual é o futuro do populismo na Europa após a derrota de Le Pen? 
O retorno do crescimento e a capacidade da Europa a reencontrar uma dinâmica econômica e social é a melhor arma contra o populismo. O fato que tenhamos juntas eleições na França agora, na Alemanha em setembro, e no Reino Unido em junho faz com que os três grandes países europeus tenham anos de estabilidade para trabalhar juntos e permitir limitar o populismo. Mas é preciso ser muito vigilante, porque Donald Trump dá uma atualidade cotidiana a essa mensagem. 
Vemos mais radicalismo político na França, na Europa e no mundo. Como restabelecer mais moderação na política? 
Assistimos a um retorno dos Estados-nação, como Rússia, China, Índia, um certo número de grandes países têm hoje força nova que faz as relações multilaterais, como na ONU, terem um papel enfraquecido por relações bilaterais. A ascensão do bilateralismo de um lado e do nacionalismo do outro conduzem a menos negociação, menos diálogo e menos busca por compreensão comum. 
Os caminhos do futuro estão na reforma do multilateralismo, do G20, da ONU, seu Conselho de Segurança, os grandes países que se sentem motores da economia, como os Brics, devem ser associados à governança mundial. 
Falar disso não é um pouco otimista com Trump na Casa Branca? 
Pode ser uma dificuldade, mas Trump é imprevisível, pode ser que com o tempo ele tome consciência da realidade do mundo, e que é preciso escutar e respeitar os outros se queremos promover a paz. Creio que o mundo nunca esteve tão perigoso em 75 anos e que a exigência de paz é verdadeiramente latente nas opiniões públicas mundiais. 
Como vê o fato de a França falhar na integração dos estrangeiros a ponto de vermos casos de radicalização no país, tão exploradas pela Frente Nacional? 
É um fracasso importante. Não fomos bem sucedidos a controlar a imigração no ritmo de nossa capacidade de integração. Primeiro, porque sem dúvida não integramos suficientemente e, depois, porque abrimos as fronteiras de forma excessiva. É um tema coesão social que continua muito difícil e que é preciso regular. A nova geração de franceses advinda da imigração pode nos ajudar nessa necessidade de uma melhor integração. 

Fonte: (RODRIGO VIZEU - Folhapress)

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