Notícia 19/11/2019

Sarampo destrói as defesas do corpo: vírus deixa o doente sujeito a infecções por três anos

Estudo da Harvard Medical School conclui que pessoas que tiveram a doença ficam vulneráveis a problemas que vão de gripe a pneumonia e reforça a importância da vacinação. Entenda

Estudo realizado na Harvard Medical School e publicado na revista Science em 31 de outubro demonstra que o sarampo destrói de 20% a 50% dos anticorpos, provocando o que os pesquisadores denominaram "amnésia imunológica". Isso significa que os indivíduos infectados ficam, por de dois a três anos, vulneráveis a uma variedade de vírus e bactérias para os quais estavam protegidos antes da doença. Segundo os pesquisadores, para além de todas as complicações próprias do sarampo, pacientes que tiveram a doença ficam mais suscetíveis a quadros que vão de influenza, comumente chamada de gripe, e herpes a pneumonia bacteriana e infecções de pele. Com isso, o estudo reafirma a importância da vacinação e conclui que a imunização, única forma de prevenção do sarampo, previne não só a ocorrência da doença, mas também protege de uma diversidade de infecções no longo prazo.

Considerando os números do sarampo, cujos casos se espalham rapidamente pelo mundo, o estudo evidencia a importância da vacinação para evitar novas ocorrências. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), no mundo, o total de casos da doença notificados nos primeiros seis meses de 2019 são os mais elevados desde 2006. Comparando com 2018, a quantidade de ocorrências de sarampo é quase três vezes maior do que a registrada no mesmo período do ano passado. No Brasil, não é diferente. Segundo dados do Ministério da Saúde, até outubro foram confirmados 5.660 casos de sarampo no país e 14 mortes pela doença, sendo sete em crianças com menos de cinco anos, três de pessoas entre 20 e 29 anos e quatro em adultos a partir de 40 anos. Desses óbitos, 13 foram registrados em São Paulo, que concentra 90,5% dos casos diagnosticados, e um em Pernambuco. Além disso, 19 estados estão na lista de transmissão ativa da doença.

A médica imunologista Ana Karolina Barreto Marinho, coordenadora do Departamento Científico de Imunização da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (Asbai), comenta que estudos anteriores já demonstravam que o sarampo destrói as células de defesa do sistema imunológico. Na prática, os médicos já observam, há anos, que a doença pode ter complicações como pneumonia e meningites. No entanto, segundo ela, esse novo trabalho realizado pelos pesquisadores de Harvard, além de muito robusto, constata que a diminuição da imunidade acontece por um período muito prolongado, de dois a três anos.

– Quem tiver a doença, terá essa perda de memória imunológica, podendo ser afetado não apenas pelas complicações do sarampo como também por outras infecções por vírus e bactérias, porque estará mais vulnerável durante anos. O estudo chancelou esses dados, uma vez que conseguiu avaliar as células de defesa e de memória do sistema imunológico com mais detalhes – observa.

Marinho explica como se dá a relação entre a doença e a redução da imunidade dos indivíduos infectados. Ela explica que o vírus do sarampo consegue entrar nas células de defesa e memória do sistema imunológico e destruí-las. Como resultado, a pessoa perde a proteção contra novas infecções. Por isso, a médica faz um alerta e lembra que o organismo leva muito tempo para conseguir se proteger contra vírus e bactérias.

– O sistema imunológico vai amadurecendo e aprendendo a se defender ao longo da vida. As vacinas são importantes, principalmente entre o público infantil, para ajudar o organismo a desenvolver a memória imunológica e de defesa. O sarampo consegue destruir essas células de defesa e o indivíduo fica vulnerável muito rapidamente. Para o sistema imunológico se restabelecer e reconstruir esse repertório de defesa, de anticorpos, conforme o estudo mostrou, levará anos e a pessoa estará mais suscetível a infecções – completa a imunologista.

A médica evidencia a gravidade do sarampo na fase aguda, destacando que a doença pode ter complicações como:

 

  • Pneumonia;
  • Meningite;
  • Cegueira;
  • Óbito.

Importância da vacinação

 

No que diz respeito à população em geral, segundo a médica imunologista, uma das principais mensagens do estudo realizado em Harvard é a importância da vacinação contra o sarampo. Essa imunização pode ser feita por meio da tríplice viral, que protege também contra caxumba e rubéola, e a tetraviral, que inclui ainda a varicela, conforme orientação do profissional de saúde dependendo do caso.

– Além das complicações na fase aguda do sarampo e do risco de morte e as complicações tardias por queda da imunidade, o estudo reforça o benefício da vacinação. A imunização é a única maneira de impedir que a doença aconteça, com todas as suas complicações graves e danos ao sistema imunológico – constata.

Marinho lembra que o Brasil havia recebido certificado de erradicação do sarampo. Como a doença voltou a fazer vítimas desde fevereiro de 2018, hoje o Brasil não é mais considerado país livre do sarampo. A médica comenta que, com a baixa cobertura de vacinação no Brasil e no mundo, a doença retornou com maior gravidade e causando óbitos.

– O surto ocorre porque o sarampo é uma doença de fácil transmissibilidade, com o contágio acontecendo por vias aéreas. Uma pessoa com a doença pode infectar de 20 a 25 pessoas. Por isso é tão importante o controle dessa doença, que é feito por meio da vacinação – comenta.

Um dos principais fatores que influenciam nessa baixa cobertura vacinal no Brasil é a disseminação de notícias falsas, as chamadas fake news. O Ministério da Saúde alerta que se não forem mantidas as metas de vacinação, outras doenças erradicadas no país também voltarão a fazer vítimas. Estudo feito em parceria pela Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) e a ONG de mobilização social Avaaz observou que 67% dos entrevistados acreditaram em pelo menos uma informação falsa sobre vacinas. Além disso, 13% dos participantes afirmaram não terem se vacinado ou vacinado uma criança sob seus cuidados. Nesse contexto de desinformação sobre imunização, a médica reforça que as vacinas contra o sarampo são absolutamente seguras.

– Essa é uma vacina importante e usada no mundo inteiro há décadas. É uma vacina segura, com quase nenhum efeito adverso. Importante reforçar: ela não causa autismo ou complicações sérias. Se colocados na balança, os benefícios superam em muito os poucos efeitos adversos – afirma.

Outro fator que, segundo a médica, influencia nessa baixa cobertura é que muitas pessoas jovens não tiveram a vivência no período anterior à erradicação do sarampo. Por isso, creem que essa é uma doença infantil e benigna. Contudo, esse é um erro. Sarampo é uma doença grave que atinge também a população adulta e pode até causar óbito, além de complicações sérias à saúde.

– A vacinação do sarampo, agora, é indicada para todas as faixas etárias, e não só o público infantil. Jovens e adultos também estão vulneráveis à doença. É preciso se vacinar, principalmente quem tem até 29 anos, que é um grupo de risco. Vacinar é pensar também na saúde coletiva. Não é só uma proteção individual. Ao se vacinarem, as pessoas protegem indiretamente outros indivíduos, como pacientes imunodeprimidos, em tratamento contra o câncer e bebês muito pequenos que ainda não têm idade para receber a vacina – discorre Marinho.

Recomendações do Ministério da Saúde sobre quem deve ser vacinado contra o sarampo:

 

  1. Crianças: considerando o aumento dos casos, aquelas que tenham entre 6 meses e 1 ano devem receber a dose zero da vacina. Além disso, a primeira e a segunda doses são indicadas para crianças que completaram 12 e 15 meses, respectivamente;
  2. Adultos: devem ser vacinados indivíduos que tenham até 29 anos de idade e tomaram apenas a primeira dose da vacina. Quem tem como comprovar que recebeu a segunda, não precisa tomar a vacina. Mas se a pessoa perdeu seu cartão de vacinação ou não se lembra se foi imunizada quando criança, precisam se vacinar. Pessoas que tenham entre 1 e 29 anos devem receber as duas doses, enquanto adultos de 30 a 49 anos, apenas uma. Essa recomendação não se aplica a mulheres grávidas e pacientes imunodeprimidos.

Como não cair nas fake news

 

Considerando o aumento da incidência do sarampo no país, suas complicações para a saúde e a baixa na cobertura vacinal nos últimos anos, vale reforçar o alerta sobre notícias falsas, que têm contribuído para esse quadro, segundo especialistas. É preciso muita atenção para não cair nas armadilhas das fake news, que propagam muita desinformação em relação às vacinas. Com o apoio da médica, listamos algumas dicas para ajudar a buscar informações seguras sobre esse tema.

 

  • Confira sempre a fonte das mensagens de texto, imagem ou vídeo recebidas por redes sociais ou aplicativos de mensagens, como WhatsApp. É preciso ter certeza de que se trata de uma informação de origem segura;
  • Entre em contato com o Ministério da Saúde, se receber alguma informação sobre vacina e não souber se trata-se de verdade ou mentira. O órgão disponibiliza um canal no WhatsApp exclusivamente para a população enviar mensagens recebidas por meio das redes sociais e confirmar se procedem ou não, antes de compartilhá-las. As áreas técnicas do órgão averiguam as informações e respondem oficialmente se são verdadeiras ou falsas. Para tanto, entre em contato com o MS por meio do canal Saúde sem Fake News, cujo número é (61) 99289-4640;
  • Em caso de dúvidas sobre vacinas, acesse o site ou as redes sociais de entidades médicas, como a Associação Brasileira de Alergia a Imunologia, Sociedade Brasileira de Imunizações e Sociedade Brasileira de Pediatria. Por meio desses canais, é possível ter acesso a informações voltadas para a população em geral ou até mesmo entrar em contato para esclarecer questões sobre sarampo, outras doenças e imunização;
  • Se mesmo assim as dúvidas persistirem, converse com um profissional de saúde. Pode ser um médico ou enfermeiro. Seja em postos de saúde ou unidades de atendimento públicas ou privadas, esses profissionais estão preparados para responder a essas questões.

Fonte: (EuAtleta)

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