Notícia 18/01/2017

Queda de juros: Inflação mais favorável e fraqueza da economia

O Comitê de Política Econômica (Copom) do Banco Central (BC) destacou a desaceleração dos preços e a fraqueza econômica para justificar a redução mais intensa da taxa básica de juros (Selic), que deve ser repetida nos próximos meses. 
No texto, os diretores do BC apontaram, mais de uma vez, o arrefecimento dos preços nos últimos meses. "A inflação recente mostrou-se mais favorável que o esperado, com sinais de um processo de desinflação mais difundido", escreveram. 
Eles também chamaram atenção para a fraqueza da economia brasileira. "O desempenho da atividade econômica recomenda a antecipação do ciclo de distensão da política monetária. Essa estratégia permite contribuir para o processo de estabilização e posterior retomada da atividade econômica". 
O documento explica a decisão tomada pelo colegiado na última quarta-feira, quando a Selic foi reduzida em 0,75 ponto percentual. O corte superou a expectativa do mercado, que acreditava em uma diminuição de 0,5 ponto percentual na taxa de juros. 
"Essa intensificação ocorre porque o BC se convenceu de que a inflação está cedendo e a economia está realmente fraca. Por isso, a tendência é que esse corte [de 0,75 ponto percentual] seja repetido", disse Ricardo Balistiero, coordenador do curso de administração do Instituto Mauá de Tecnologia. 
Segundo o especialista, a Selic deve fechar 2017 abaixo dos dois dígitos, o que reduziria a taxa de juros real para cerca de 5% ao ano. "Se não houver grandes complicações, a taxa nominal deve diminuir para 9,75% [ao ano]." Após o corte da semana passada, a Selic recuou para 13% ao ano. 
No relatório Focus divulgado na segunda-feira pelo BC, os analistas de mercado também estimaram que a Selic terminará 2017 em 9,75% ao ano. 
Gestora de renda fixa da Mongeral Aegon Investimentos, Patrícia Pereira apostou em um novo corte de 0,75 ponto percentual na próxima reunião. "Nessa ata ficou claro que a atividade econômica vai pesar mais para a decisão." Até o final de 2017, seguiu ela, a Selic deve cair a 10% ao ano. 
Incerteza e riscos 
Entretanto, alguns fatores poderiam conter a trajetória de queda da taxa de juros nos próximos meses. 
"No âmbito externo, o cenário é bastante incerto. Essa incerteza decorre, dentre outros fatores, de possíveis mudanças no rumo da política econômica nos EUA", indicaram os diretores do BC. 
Para Balistiero, as primeiras ações do presidente eleito, Donald Trump, poderiam acelerar o aumento da taxa de juros americana. Esse movimento daria força aos índices de preços brasileiros. "Mesmo nesse caso, ainda haveria espaço para reduzir a Selic, talvez em um ritmo mais lento", ponderou. 
O Copom também fez referência aos projetos do governo que dependem de aprovação do Legislativo, como as mudanças na Previdência. 
"Os passos no processo de aprovação das reformas fiscais têm sido positivos até o momento, o que pode sinalizar maior celeridade e probabilidade de aprovação. Por outro lado, o processo é longo e envolve incertezas", disse. 
De acordo com Balistiero, a Lava Jato é um dos fatores que poderia impedir o avanço das medidas fiscais. "A investigação poderia enfraquecer o governo e dificultar a aprovação de medidas que já são consideradas polêmicas", explicou. 
Desaceleração dos preços 
Por outro lado, alguns dos riscos apresentados pela ata poderiam intensificar o ritmo de arrefecimento dos preços. "O processo contínuo de distensão do mercado de trabalho e a desaceleração significativa da atividade econômica podem produzir desinflação mais intensa que a refletida nas expectativas de inflação." 
Segundo Patrícia, a fraqueza econômica deve levar a novos aumentos da taxa de desemprego nos próximos meses. Com isso, o recuo inflação poderia superar as expectativas atuais. "Seria como no ano passado, que os preços caíram mais do que era esperado." 
Os diretores do BC ressaltaram que a intensificação dos cortes na taxa de juros não vai afetar a trajetória dos preços. A adoção dessa medida, disseram eles, não exigiria "desvio em relação ao objetivo de levar a inflação para a meta de 4,5% em 2017 e 2018". 
Para os analistas consultados pelo relatório Focus, a inflação oficial deve fechar este ano em 4,80% e chegar ao centro da meta (4,5%) apenas no ano que vem. 
Corte maior 
Em outro ponto interessante do documento, foi revelado que os membros do Copom cogitaram uma redução menor, de 0,5 ponto percentual, na Selic. "O Copom avaliou a alternativa de reduzir a taxa básica de juros para 13,25% e sinalizar uma intensidade maior de queda para a próxima reunião". 
Entretanto, "diante do ambiente com expectativas de inflação ancoradas, o Comitê entende que o atual cenário, com um processo de desinflação mais disseminado e atividade econômica aquém do esperado, já torna apropriada a antecipação do ciclo de distensão da política monetária". 

Fonte: Renato Ghelfi - Panorama Brasil)

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