Movimento pelo aborto é mundial e não haverá retrocesso

06/08/2018 | 08:54

Ativista argentina, María Virginia Godoy, considera que país terá de voltar a debater tema se Senado o rejeitar 


“O aborto saiu do armário”, diz, sorrindo e com seu lenço verde —símbolo da campanha pela legalização do recurso— a atriz e comediante María Virginia Godoy, 37, mais conhecida como Senhorita Bimbo. 
Ela é uma das líderes do movimento feminista jovem que vem tomando as ruas de Buenos Aires para pressionar o Senado a aprovar o projeto de lei que já passou pela Câmara dos Deputados e que permite a interrupção da gravidez até a 14ª semana de gestação. 
Consciente de que, apesar do placar apertado, a vantagem é dos que se opõem à lei —32 a 28, com 11 indecisos, segundo levantamento da imprensa local—, Bimbo diz que a luta já está ganha, mesmo se o Senado barrar a legislação. 
“Porque o que conquistamos foi muito e não há volta atrás, derrubamos estigmas, colocamos lado a lado gente que pensa diferente em outras áreas, mas que concorda nesse ponto, mulheres de distintas gerações”, diz, em entrevista à Folha no estúdio onde grava seu programa de rádio. 
“Se não ganharmos agora, quando se apresente outra vez o projeto no Congresso, e vamos lutar para que se apresente logo, haverá o dobro de gente nas ruas.” 
De fato, nesta semana, estão sendo organizados “pañuelazos” (ato com panos verdes) em Nova York, Barcelona e no interior da Argentina. 
Filha da veterana cantora de tango Virginia Luque, Bimbo tem milhares de seguidores nas redes sociais e diz que foi por esse meio que as mulheres mais jovens se articularam. 
“Há uma onda mundial, e isso não terá retrocesso. Posso ser uma cara conhecida adiante desse movimento, mas quem o protagoniza mesmo são as meninas mais jovens, que já estão crescendo com outra cabeça. Elas não carregaram a carga pesada de gerações anteriores e estão menos suscetíveis para aguentar coisas pelas quais nós e nossas mães passamos”, diz. 
Bimbo participou da vigília de 14 de junho, quando milhares de mulheres passaram a noite do lado de fora do Congresso enquanto se votava a lei na Câmara de Deputados. 
“Até as 5h eu não achava que fosse passar. Quando me dei conta de que havíamos ganhado, foi uma emoção muito forte. Essa é a experiência política mais importante que vivi, porque senti o poder das ruas de verdade, o poder popular, concreto e transversal.” 
E acrescenta: “Sinto que, se pudéssemos transferir isso para outras áreas, seríamos uma sociedade melhor”. 
Para a atriz, a Argentina é um país ainda muito hipócrita. “No meio dos que são contra o aborto, por exemplo, há muitos que abortam. Assim como no meio dos que eram contra o casamento homossexual, havia muitos que levavam uma vida homossexual, mas a força do estigma social e a pressão da Igreja Católica, principalmente no interior do país, ainda contam muito.” 
Uma nova vigília se prepara a noite de quarta (8) e a madrugada de quinta (9), quando o Senado votará, por fim, a lei. Apesar de ser antiaborto, o presidente Mauricio Macri vem afirmando que não usará seu poder de veto, caso a Casa aprove o projeto. 
“Eu sei que o placar está desfavorável, mas vamos encher as ruas e fazer tanto barulho que, se a proposta perder, a frustração será imensa. Não sei se o que os senadores farão ao ver tanta gente decepcionada. Vamos lutar para não perder o capital político que construímos”, afirma. 
Para ela, o mais importante é que tanta gente hoje esteja debatendo “uma palavra que até então era proibida e que essa discussão tenha feito com que muita gente pudesse contar sua história pessoal, ou traumas com que se teve de conviver por muito tempo. Isso é uma vitória contundente, não somos as mesmas mulheres de antes”. 
No lenço verde que leva no pescoço, está escrito à mão a palavra misoprostol, nome do remédio abortivo usado em alguns países onde o recurso é legal, como no Uruguai. 
“Se a lei não passar, vamos continuar com nosso trabalho de informar quem quer abortar clandestinamente para que o faça com segurança, vamos informar sobre o misoprostol e continuar apoiando as socorristas que ajudam essas mulheres.” 
Bimbo se preocupa apenas com o efeito que uma derrota pode ter para as meninas mais jovens. “Elas não devem se sentir derrotadas, porque foram muito importantes, tiraram o aborto do armário, se informaram, levaram a discussão para suas casas, destruíram um tabu. Vamos lutar para que não se sintam abatidas se perdermos agora, porque vamos ganhar depois.” 
Indagada sobre quem diz que o feminismo se tornou extremo e que chamam as militantes de feminazis, Bimbo se revolta. “Não há extremismo, não há feministas colocando bombas nem fazendo vítimas como a violência machista faz diariamente. Um rosto pintado e um grito de guerra são extremismo?”, declarou. 
“A única coisa que há do outro lado é o medo de perder privilégio. Não há interlocutores reais nesse debate, apenas gente que tem medo de se mover de uma posição em que estava confortável para dar lugar a nossos direitos.” 
Desde adolescente, Bimbo é ativista e trabalhou na ONG Anistia Internacional antes de entrar para a vida artística. Começou com um programa chamado “Villa Cariño”, em que se falava de relações héteros e homossexuais, poliamor, sair do armário e de feminismo. Depois veio a comédia e o stand up. Agora tem a agenda cheia de shows e sairá em turnê depois da votação. 
Lei pela legalização do aborto na Argentina 
Qual é a proposta? Legalizar  a interrupção da gravidez em qualquer circunstância até a 14ª semana de gestação, com atendimento na rede pública; hoje só é permitido em caso de risco de morte da mãe e estupro. 
Como foi a votação na Câmara? Após uma sessão que atravessou a madrugada acompanhada de protestos, a legalização foi aprovada pelos deputados por 129 votos a favor, 125 contrários e uma abstenção 
Como está o placar no Senado? No momento, a imprensa argentina estima vitória dos que se opõem à interrupção da gravidez; são 32 legisladores contra o aborto, 28 a favor e 11 indecisos. 
Como se posiciona o presidente Mauricio Macri? Embora ele seja contrário ao aborto, considerou o debate um avanço da sociedade argentina e disse que não vetará a lei caso ela passe em votação no Congresso. 
Que outras questões estão em jogo depois da votação? O Congresso também terá de discutir temas como a objeção de consciência de médicos e clínicas, principalmente aqueles com orientação religiosa. 
Há estrutura na rede de saúde argentina para o aborto? Parte dos deputados e governadores de províncias do interior do país critica a medida por não haver condições de atender as candidatas ao aborto.

Fonte: (Folha de S.Paulo)