Registros de gripe mais que dobram

28/06/2018 | 09:37

Brasil já soma 608 mortes 

Maioria dos casos são por H1N1 e campanha de vacinação não atingiu meta do Ministério da Saúde 


A baixa adesão à imunização contra gripe levou o Ministério da Saúde a liberar a vacina para mais grupos da população - Bruno Santos/Folhapress 
Dados de novo boletim epidemiológico do Ministério da Saúde apontam que o país já registra 3.558 casos de influenza, com 608 mortes —o equivalente a mais do que o dobro do mesmo período do ano passado. 
O documento contabiliza os registros de atendimentos da chamada síndrome aguda respiratória grave até o dia 23 de junho. 
Destes, cerca de 60% dos casos foram causados pelo H1N1, vírus de circulação sazonal, mas apontado como de maior chance de causar complicações especialmente em pessoas de maior risco, como idosos, pessoas com comorbidades e crianças. 
Para comparação, no mesmo período de 2017, havia 1.459 casos de influenza, com 237 mortes —o que representa um aumento de 143%. Na época, o vírus predominante era H3N2, subtipo que também pode causar casos graves, mas sobretudo em idosos, como informa o infectologista Marcos Boulos. 
Já no início deste mês, o país registrava 2.315 casos de influenza, com 274 mortes. 
Dentre as mortes ocorridas neste ano, 74% foram em pacientes com ao menos um fator de risco para desenvolver complicações da doença, como idosos (236 mortes), pessoas com doenças cardiovasculares (143 mortes) e diabetes (109 casos). 
Também cresceu o número de mortes de crianças menores de cinco anos. Só até a última semana, foram 46 casos, o triplo do registrado no mesmo período do ano anterior. 
Apesar do aumento, o total ainda é menor do que o registrado em 2016, quando houve 12.174 casos de gripe e 2.220 mortes em todo o ano —o maior número já registrado desde a pandemia de 2009. Já os registros até junho daquele ano, mesmo período atual, somavam 7.441 casos e 1.346 mortes. ? 
VACINAÇÃO 
Em meio a esse aumento de casos de gripe neste ano, a campanha de vacinação contra a doença, iniciada no fim de abril, não conseguiu atingir a meta prevista pelo Ministério da Saúde. 
A expectativa era vacinar até 90% do público-alvo, formado por gestantes, puérperas, idosos, crianças de seis meses a menores de cinco anos, trabalhadores de saúde, professores, indígenas e pessoas privadas de liberdade. 
Até esta segunda-feira (25), no entanto, apenas 86% deste público já havia sido vacinado, o que indica que 6,8 milhões de pessoas não tomaram a vacina. 
O grupo com menores índices de vacinação é o de gestantes e crianças, com cobertura vacinal de 73,2% e 73,4% do total, respectivamente. 
Mesmo com os índices baixos, a campanha foi encerrada na sexta-feira (22). Postos de saúde que tiverem estoque de vacinas disponíveis ainda podem ofertar a imunização. 
O público-alvo, porém, foi ampliado. Desde segunda, a vacina também pode ser ofertada para crianças de cinco a nove anos e adultos de 50 a 59 anos. 
Abaixo, tire suas dúvidas sobre a vacinação e sobre a gripe. 
A VACINAÇÃO 
Como posso me vacinar contra a gripe? 
Na rede privada, o preço da dose varia entre R$ 80 e R$ 160. Na rede pública, a campanha foi encerrada, apesar de ter alcançado apenas 86% do público alvo (a meta era 90%). Como a procura foi baixa, postos de saúde que tiverem doses em estoque ainda podem ofertar a imunização. 
Quem deve tomar a vacina? 
O ideal é que todos acima de seis meses de idade tomem a vacina, mas alguns grupos correm mais risco de desenvolver complicações da doença. 
?Quais são os grupos de risco da gripe? 
Crianças de seis meses a cinco anos, idosos, professores e profissionais da saúde (redes pública e particular), grávidas, mulheres que tiveram filhos há até 45 dias, presidiários, funcionários do sistema prisional, indígenas e pessoas com doenças crônicas (diabetes, asma, câncer) ou condições clínicas especiais (respiratórias, cardíacas, renais, hepáticas, neurológicas, diabéticos, obesos, imunossuprimidos, transplantados). 
Quem tem direito à vacina na rede pública? 
As pessoas que fazem parte do grupo de risco e, desde segunda (25), crianças de cinco a nove anos e adultos de 50 a 59 anos. 
Quem não pode tomar a vacina? 
Bebês menores de seis meses e quem já teve reações anafiláticas em aplicações anteriores. Quem teve a síndrome de Guillain-Barré ou tem reações alérgicas graves a ovo —a vacina contém traços de proteínas do alimento— também deve ter cautela. 
Quantas doses preciso tomar? 
É recomendada uma dose por ano, porque as cepas do vírus mudam. Crianças de seis meses a nove anos que estão recebendo a vacina pela primeira vez devem tomar uma segunda dose, com intervalo de 30 dias entre elas. 
Se eu já tiver pegado a gripe, ainda preciso tomar a vacina? 
Precisa. O tempo de imunização após a infecção é mais prolongado que o da vacina, porém não é possível prevê-lo porque ele varia bastante. 
A vacina protege contra quais vírus? 
A vacina dada na rede pública é a trivalente, contra as gripes A (H1N1), A (H3N2) e um tipo da B. Na rede privada também é oferecida a quadrivalente —que protege contra mais um tipo da B. 
Ela "vale" por quanto tempo? 
Ela demora de duas a quatro semanas para começar a fazer efeito e é útil por 6 a 12 meses, uma “temporada” do vírus. 
Ela é 100% eficiente? 
Não, a eficácia varia. Em pessoas não idosas e saudáveis, gira em torno de 70%, mas cai dependendo da faixa etária e de outros fatores, como presença de infecções e doenças crônicas. Para prevenir mortes, porém, a eficiência sobe para 85%, segundo o pediatra e infectologista Renato Kfouri. 
Quem toma a vacina tem chances de ficar gripado como “reação”? 
Não. O máximo que pode acontecer são dores locais (10% a 20% dos casos), febre baixa, dor no corpo e mal-estar (menos de 1%). 
Posso tomar as vacinas da gripe e da febre amarela no mesmo dia? 
Sim. Segundo Renato Kfouri, é inclusive uma ótima oportunidade de colocar as vacinas em dia. 
A GRIPE 
Devo ir ao hospital assim que sentir um dos sintomas da gripe? 
Nem sempre. Pode ser que seja apenas um resfriado. Ir a um pronto-socorro ou a um consultório médico pode expor a pessoa, que já está com a imunidade baixa, a microorganismos e fazer com que ela contraia a gripe ou outras doenças. 
Qual o período de maior incidência da doença? 
Durante a temporada de frio, entre abril e outubro —principalmente no mês de junho, segundo o Ministério da Saúde. 
Há um surto neste ano? 
É difícil dizer, uma vez que apenas os casos graves, que resultam em complicações, são de notificação obrigatória. Em relação a eles, o número de fato aumentou, em comparação com 2017. Até o início de junho, foram contabilizados 2.715 casos e 446 mortes. No ano passado, no mesmo período, eram 1.502 casos e 99 mortes. Especialistas, no entanto, afirmam que 2017 foi um ano atípico, com poucos registros. Se olharmos para 2016, veremos que os números são muito maiores do que os  que temos hoje: entre janeiro e junho, foram 6.097 casos e 1.103 mortes. 
O vírus H3N2, principal responsável por um surto de gripe atualmente nos Estados Unidos, também pode causar uma epidemia no Brasil? 
É pouco provável. A vacina que será aplicada na rede pública foi adaptada para ser mais eficiente contra o H3N2. Até junho, o número registrado de casos desse tipo do vírus foi bem menor (341) do que no mesmo período de 2017 (1.113). 
Como a gripe é transmitida? 
Contato direto com o muco produzido pelo doente. 
Inalação das gotículas emitidas quando a pessoa espirra ou tosse. 
Contato com superfícies como mesas, maçanetas e talheres que tiveram contato com muco ou gotículas. 
Quais são os sintomas? 
Febre alta, tosse, dor muscular, dor de cabeça, dor de garganta, coriza e irritação nos olhos e nos ouvidos. 
Como me prevenir? 
Tome a vacina; é o método mais eficaz de evitar a gripe. 
Lave sempre as mãos com água e sabão ou com álcool. 
Evite levar as mãos aos olhos, ao nariz e à boca. 
Cubra a boca quando for tossir ou espirrar. 
Como funciona o tratamento da gripe? 
Repousar, beber muito líquido e evitar álcool e cigarro. 
Medicamentos como o paracetamol (Tylenol) podem ser usados para combater febre e dores. 
Em casos graves ou em grupos de risco, pode ser recomendado medicamento antiviral. 
Uso do Oseltamivir (Tamiflu), vendido com receita 
Fontes: Ministério da Saúde, Secretaria da Saúde de SP e infectologistas .  

Fonte: (Renato Kfouri, Rosana Richtmann, Isabella Ballalai e Carlos Kiffer - Folha de S.Paulo)