A vida após a zika

18/06/2018 | 13:13

Em Recife ou Amsterdã, mães de bebês com microcefalia têm mesmos desafios 


Em novembro de 2015, o Ministério da Saúde declarou oficialmente estado de emergência por causa do vírus da zika. Nesse mesmo ano, nasciam Luis Felipe Borba da Rocha e Arthur Negromonte Silvino, em Pernambuco — um dos estados mais atingidos pela doença e pelo surto de microcefalia e outras alterações neurológicas associadas. As mães dos meninos só descobriram depois que eles nasceram que haviam tido zika durante a gravidez. A partir daí, passaram a se dedicar ao desenvolvimento das crianças. A má-formação na fase gestacional faz com que os bebês tenham cabeças menores que o considerado normal para suas idades e prejudica o sistema nervoso central, comprometendo o desenvolvimento neuropsicomotor. 
Fernanda Borba e Karulyne Negromonte tiveram gestações tranquilas, por isso nem imaginavam que algo pudesse ameaçar seus bebês. Hoje, quase três anos após o nascimento dos meninos, as angústias se acalmaram e elas experimentam diariamente avanços e novos desafios na rotina dos filhos para superar limitações. Só que as duas famílias estão separadas por quase oito mil quilômetros: Fernanda vive no Recife e Karulyne, em Amsterdã. A convite do GLOBO, elas contaram em depoimentos suas experiências. Há muita coisa em comum, como o testemunho do progresso de seus filhos. A distância, no entanto, evidencia diferenças, como o acesso a terapias e profissionais de saúde no Brasil e na Holanda. 
TERAPIAS ESTIMULAM DESENVOLVIMENTO 
Apesar de eventuais dificuldades, desde que descobriram a má-formação congênita, ambas se empenharam para que as crianças tivessem o melhor tratamento. Recorreram a várias atividades, desde cedo. As inciativas têm como objetivo a estimulação precoce, pois assim há maiores chances de superação das limitações neurológicas, intelectuais e motoras. 
Segundo o neurologista infantil Jair Luiz de Moraes, as terapias variam de acordo com o comprometimento de cada bebê, além de questões associadas à microcefalia, como epilepsia e transtornos comportamentais. Para o médico, é essencial investir no estímulo dessas crianças. 
— A criança nessa condição demanda um trabalho multidisciplinar, com equipe que pode contar com fonoaudiólogo, terapeuta ocupacional, psicólogo, entre outros. O médico faz o acompanhamento e pode receitar medicações — diz Moraes, que reconhece ser um tratamento oneroso. — A medicina não é uma ciência exata, é arriscado determinar como cada criança vai evoluir. Como em todo comprometimento neurológico, há casos mais e menos graves. Mas não devemos desistir e sim investir na estimulação. Há muitos ganhos no decorrer do tratamento e do desenvolvimento. 

Fonte: (Ana Paula Blower - O Globo)