Brasil perde com disputa comercial de EUA e China

18/06/2018 | 13:04

Preço das commodities devem cair; associação revisa projeção do superávit 


O Brasil perderá com a guerra comercial entre EUA e China. Para analistas, a disputa deve deprimir os preços das commodities, das quais o país é dependente. 
Embora as exportações de soja e carne suína brasileiras possam ter ganhos, já que Pequim passa a taxar em 25% esses produtos americanos, o resultado global será negativos. 
Segundo José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), a escalada protecionista vai ter um impacto sobre o crescimento mundial o que, por sua vez, reduzirá a demanda por commodities. 
Para o Brasil, que depende majoritariamente da exportação de commodities e produtos básicos, o cenário que se forma é má notícia. 
Castro previa para 2018 exportações de US$ 219 bilhões e importações de US$ 168 bilhões, gerando superávit de US$ 50,4 bilhões, mas vai revisar os números para baixo. 
Exportações foram prejudicadas pela greve dos caminhoneiros e barreiras como as medidas antidumping impostas pela China ao frango, e as importações serão mais baixas do que estimava porque o crescimento do PIB brasileiro desacelerou. 
A isso tudo, Castro acrescenta a tendência de queda do preços das commodities, exacerbada pelas medidas protecionistas. 
Já refletindo a cautela dos investidores, a soja fechou em baixa de 2,35% na sexta-feira (15), menor xis dos últimos dois anos. O petróleo teve queda de 3,83% e o minério de ferro, de 0,11%. 
Castro não acredita que o Brasil consiga ganhar mercado dos chineses nos EUA, onde vários produtos manufaturados na China passarão a ter a taifa de 25%. "Nem com essa tarifa nós nos tornamos competitivos", diz. 
"Ainda mais com a alta dos custos aqui, por causa do aumento do frete, da reoneração da folha, e da redução drástica do Reintegra." 
Por outro lado, destaca, o dólar em alta no Brasil deve agir como uma espécie de barreira para evitar boa parte do desvio de comércio, impedindo uma enxurrada de produtos chineses. 
Em 2017, o Brasil registrou exportações de US$ 217 bilhões, importações de US$ 150 bilhões, e um saldo de US$ 66 bilhões. 
Entre as retaliações anunciadas pela China está a tarifa de 25% sobre a soja americana. Os EUA exportam US$ 14 bilhões em soja por ano para os chineses. Para André Nassar, presidente-executivo da Abiove, que reúne empresas do setor, ninguém conseguiria preencher a lacuna da soja americana na China. Mas a tarifa pode gerar um prêmio sobre o preço da soja brasileira. 
Os EUA exportaram 33 milhões de toneladas de soja em grão em 2017 para a China. Segundo Nassar, o Brasil conseguiria, no máximo, aumentar a produção em 5 milhões de toneladas em um ano. E mesmo assim, só no ano que vem, porque a maioria da soja brasileira de 2018 já foi escoada. Mais de 70% da soja brasileira é escoada até junho, enquanto os EUA vendem a partir de setembro. 
Além disso, segundo Nassar, existe um desincentivo para aumentar a área plantada, por causa da alta no custo do frete 
Brasil exportou US$ 29 bilhões em soja para a China no ano passado, segundo a Abiove —o país fornece 46% da soja em grão comprada pela China, e os EUA, cerca de 41%. A Argentina responde por 10%. 
"Vai ocorrer um ajuste: preços internos da soja nos EUA vão ter que cair, preços vão subir um pouco na China e haverá um prêmio para a soja brasileira", diz Nassar. 
Mas com a perda de boa parte do mercado chinês, os EUA vão ocupar parte dos mercados da soja brasileira, como a UE. Mesmo assim, trata-se de uma demanda muito menor? A China compra 53,8 milhões de toneladas de soja brasileira, e a UE, 5,2 milhões. 
Todas essas projeções, porém, ainda são incertas, porque o tiroteio pode aumentar nos próximos dias. O presidente americano afirmou que iria impor "tarifas adicionais" em caso de retaliação. 
A decisão de Trump não foi recebida com unanimidade. Entre os "cérebros do Vale do Silício", por exemplo, há opositores. Existe a preocupação de que as retaliações acabem por aumentar os preços para os consumidores no mercado interno, o que não se dissipou com o anúncio das exclusões pelo governo dos EUA. 
"Ele está tirando dinheiro do bolso de americanos", disse, em nota, o presidente do ITI Conselho da Indústria de Tecnologia da Informação (ITI, na sigla em inglês), Dean Garfield, que representa empresas como a Apple, Google, Dell e HP. Segundo ele, mesmo tarifas sobre itens como sensores e componentes de impressoras já eleva os custos. 
Mas especialistas apontam que há mais apoio a essas sobretaxas do que às impostas contra o aço e o alumínio. "Empresas americanas têm encorajado o presidente, esperando que essa estratégia convença Pequim a enfrentar problemas com propriedade intelectual dos chineses", afirmou, em artigo recente, o pesquisador Edward Alden, do Council on Foreign Relations. 
GUERRA DE GIGANTES 
Os EUA (Estados Unidos) acusam a China de roubo de propriedade intelectual, por meio de acordos com empresas de tecnologia americanas que exigem a transferência de conhecimento para estatais do país. 
"Nós temos os melhores cérebros no Vale do Silício. São as joias da coroa para esse país. E nós vamos protegê-los", afirmou, durante entrevista à emissora Fox News. 
Por isso, o governo estabeleceu sobretaxas de 25% a 818 produtos chineses como telas do tipo touchscreen, baterias, aeronaves, navios, motores de carros, radares, equipamentos de diagnóstico médico e máquinas agrícolas, entre outros. 
A lista deixou de fora, porém, produtos comprados diretamente por consumidores americanos, como celulares, TVs e medicamentos --além de armas, que estavam no primeiro rol de punições, anunciado em abril. 
As sobretaxas começam a valer no dia 6 de julho. 
Em troca, Pequim anunciou, horas depois, tarifas retaliatórias de 25% a outros 659 produtos americanos, acusando os EUA de adotarem um "comportamento míope". 
"A China não quer uma guerra comercial, mas não temos outra opção a não ser nos opormos fortemente a isso", informou o ministério do Comércio chinês.

Fonte: (Patrícia Campos Mello e Estelita Hass Carazzai - Folhapress)