Protesto atinge economia em momento de recuperação frustrante

29/05/2018 | 08:42

 

 

O prejuízo econômico das paralisações dos caminhoneiros nos últimos dias já começa a aparecer nos indicadores acompanhados por analistas. 
O primeiro efeito palpável da paralisação surgiu nas estatísticas de consumo de energia elétrica. 
Entre quinta-feira (24) e domingo (27), houve uma contração de 9% em comparação ao mesmo período da semana anterior, segundo Artur Passos, economista do Itaú Unibanco. 
É comum que greves de grande proporção causem danos de curto prazo. 
Segundo economistas, o script de episódios de natureza semelhante ao atual é o seguinte: durante a crise, há efeitos negativos imediatos que, no entanto, são revertidos nos meses seguintes. 
A grande dúvida, que dificulta estimativas sobre o impacto desta crise, é se, quando chegar ao fim, o movimento atual será comparável a outros eventos em anos recentes. 
Para especialistas, há indícios de que a situação caminhe para se tornar mais severa e, com isso, provoque prejuízos mais duradouros. 
"O governo e as instituições sairão muito abalados desta crise. Isso pode aumentar o peso da indefinição eleitoral sobre a confiança, prejudicando ainda mais o consumo e o investimento", diz Armando Castelar Pinheiro, coordenador de economia aplicada do Ibre/FGV (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas). 
Passos concorda que existe o risco de efeitos mais duradouros desta vez, embora ressalte que ainda não se pode ter certeza sobre isso. 
"Parece que tanto a adesão quanto a duração do movimento caminham para ultrapassar as de outros episódios recentes", afirma. 
De acordo com Castelar, a experiência de paralisações dos últimos anos --como outras greves de caminhoneiros e os protestos causados pelo reajuste de tarifas públicas em 2013-- indica que as vendas do varejo são as mais afetadas, enquanto o impacto sobre a indústria é menor. 
Mas mesmo o estrago sobre o comércio costuma ser revertido logo no mês seguinte dos protestos. 
"Muita coisa que deixa de acontecer nesses períodos de tumulto acaba acontecendo depois", diz Castelar, do Ibre. 
O problema é que, além de as paralisações estarem se estendendo além do previsto, atingiram a economia brasileira em um momento de recuperação frustrante, após uma longa recessão. 
Os repetidos dados de atividade mais fracos do que o esperado já tinham levado a uma onda de revisões para baixo nas projeções de expansão do PIB (Produto Interno Bruto) deste e do próximo ano. E, segundo analistas, esse movimento deve continuar. 
"O risco é que essa crise aumente ainda mais as dúvidas sobre a capacidade de crescimento", afirma Passos. 
Embora a incerteza provocada por eventos como o atual seja relevante, é difícil mensurá-la, completa o economista. 
De acordo com Castelar, se a confiança de consumidores e empresários for, de fato, muito abalada, a demanda por bens e serviços na economia diminuirá ainda mais: 
"Ironicamente, se isso ocorrer, trará grande prejuízo aos próprios caminhoneiros." 

Fonte: (Érica Fraga - Folhapress)