Remédio que barra HIV está em 10 estados e no DF

02/04/2018 | 09:07

Profilaxia pré-exposição (PrEP) é tomada por 1.800 pessoas de grupos de risco 


Clarissa (nome fictício), 28, é moradora de Porto Alegre, cidade que registra o maior índice de detecção de Aids entre todas as capitais, segundo o Ministério da Saúde. Transexual, ela trabalhou como garota de programa entre os 19 e os 22 anos. Deixou a profissão há cinco anos, quando conheceu o companheiro, portador do vírus HIV. 
No início de 2017, ela viu na TV uma reportagem sobre um tratamento de prevenção à Aids inédito no Brasil. Procurou uma unidade de saúde e dois dias depois já tomava a primeira dose da PrEP, que seria o tratamento de profilaxia pré-exposição ao vírus HIV (cujo nome comercial do disponível no Brasil é Truvada). 
O remédio, que já era usado em países como França e Estados Unidos, começou a ser distribuído gratuitamente pelo SUS no Brasil em 2017. 
Podem receber a droga pessoas de grupos vulneráveis: homens que fazem sexo com homens, população trans, trabalhadores e trabalhadoras do sexo, por exemplo. 
Porto Alegre foi a primeira cidade a ter um paciente aderindo ao tratamento. No último balanço do ministério, o remédio estava disponível em 11 unidades da federação (AM, CE, PE, BA, DF, MG, RJ, SP, PR, SC e RS) e 1.800 pessoas estavam em tratamento. 
A pílula é uma combinação das substâncias tenofovir e entricitabina, e reduz em até 90% o risco de infecção pelo HIV. Ela tem de ser tomada diariamente, e o efeito de proteção só começa após o sétimo dia de uso para relações envolvendo sexo anal e de 20 dias para o vaginal. 
Ela, no entanto, não substitui a camisinha, já que não protege contra a gravidez indesejada nem contra outras doenças sexualmente transmissíveis. A possibilidade de que a pílula funcione como um estímulo ao sexo desprotegido é uma das principais polêmicas em torno da PrEP. 
Mas de acordo com a diretora do Departamento de Vigilância, Prevenção e Controle das Infecções Sexualmente Transmissíveis, do HIV/Aids e das Hepatites Virais do Ministério da Saúde, Adele Benzaken, os estudos mostram o contrário. 
A oferta do tratamento acaba levando muitas pessoas que fazem sexo desprotegido até os postos de saúde, onde recebem orientação. 
"Quando o aconselhamento é feito de maneira adequada pelos profissionais de saúde [a PrEP] aumenta o uso do preservativo", diz. "Porque muitas vezes as pessoas que vão procurar a PrEP estão tendo sexo desprotegido e estão se sentido em risco". 
Clarissa, por exemplo, admite que às vezes o casal se descuida no uso da camisinha, e que a medicação funciona como uma garantia extra de proteção. 
"Não basta disponibilizar o preservativo, a medicação, seja o que for. Não basta disponibilizar os insumos, tu precisas de conversa, de discussão sobre essas questões", diz a pedagoga Cláudia Penalvo, do grupo Somos, que atua na defesa dos direitos da comunidade LGBT em Porto Alegre e que trabalha com HIV desde os anos 1990. 
Para ela, o país andou para trás no diz respeito a campanhas de conscientização. "Já tivemos ações muito mais de vanguarda. Hoje elas são tímidas e até moralistas". 
Só um laboratório está autorizado a comercializar a PrEP no Brasil. Segundo o ministério, um conjunto de 30 comprimidos (que cobrem o tratamento durante um mês) custa U$$ 22,50 ao SUS. Outros dois laboratórios já pediram registro à Anvisa, o que deve reduzir o custo do tratamento. 
A estimativa do Ministério da Saúde é de que até o final do ano entre 7.000 e 9.000 pessoas estejam usando a medicação. Para isso, foi calculado um orçamento de R$ 8 milhões. Mas o Ministério afirma que não é um teto de investimento, e que o valor poderá ser revisto se a procura superar a expectativa. 
Nem todos os que pertencem aos grupos vulneráveis, porém, têm indicação para a PrEP —a prescrição depende de aspectos comportamentais. Um homem homossexual que tem uma relação estável com o parceiro em que ambos são soronegativos e usam camisinha, por exemplo, não é elegível. 
Para o infectologista do Hospital Emília Ribas, Jean Gorinchteyn, a PrEP é bem-vinda, desde que seja encarada como uma prevenção adicional ao preservativo. 
Outra preocupação é quanto à adesão ao medicamento, que precisa ser tomado todos os dias. Entre os principais efeitos colaterais estão náuseas, dores de estômago, diarreia e vômito, e a tendência é que os sintomas diminuam trinta dias após o início do tratamento. 

Fonte: (Fernanda Wenzel - Folhapress)