Portugal: Alternativas para cuidar da população idosa

19/03/2018 | 08:50

Com 20% das pessoas acima dos 65 anos, país testa serviço, transporte e mudança comportamental 

Mais da metade dos portugueses afirma que o envelhecimento está entre os maiores problema do país. 
A conclusão veio de pesquisa com 25 mil portugueses de 17 a 71 anos feita pela Universidade Católica Lisbon School of Business and Economics. Diante de 50 temas listados por pesquisadores, os participantes citaram os 15 que mais os preocupavam —o sistema de Justiça aparece em segundo, com 54,3%. 
O temor é justificado: quinto país mais envelhecido do mundo e oitavo com menor índice de fecundidade, Portugal tem multiplicado seu índice de envelhecimento —o número de pessoas com mais de 65 anos para cada grupo de 100 pessoas abaixo de 15. 
Em 1960, havia 27,3 idosos para cada 100 jovens. Em 2011, no último censo, havia 127,8. Dos 10,3 milhões de portugueses, 20% têm mais de 65 anos, segundo o Instituto Nacional de Estatística (no Brasil, em 2010, eram 7,4%). 
As projeções do INE indicam que o processo de envelhecimento só vai se estabilizar em 2049, resultado da baixa natalidade somada à emigração da população. 
O quadro é mais agudo em Lisboa, onde as pessoas acima de 65 são 25% da população. Na capital, parceria da Câmara Municipal (Prefeitura) com a Santa Casa de Misericórdia prevê o investimento de €140 milhões (R$ 565 milhões) em quatro anos em projetos dentro da Estrate?gia Nacional para o Envelhecimento Ativo e Sauda?vel. 
“A internação não deve ser mais a primeira resposta ao desafio do envelhecimento. É preciso adaptar os horários ao ciclo de vida, evitar que as pessoas estejam muito tempo sozinhas”, diz o advogado Sérgio Cintra, 45, gestor da ação social da Santa Casa. 
“Esse projeto só funciona como um conjunto de iniciativas, não existe uma fórmula mágica.” Incluir os idosos entre os grupos que desfilam pela avenida da Liberdade na noite de Santo Antônio, por exemplo, é tão eficaz quanto medidas mais caras e complexas, afirma Cintra. 
FASES 
O programa articula três eixos (vida ativa, vida autônoma e vida apoiada) e prevê de um fórum para o treinamento de 6.000 cuidadores a reforma de casas e calçadas. 
Está prevista também a construção ou readequação de 21 centros que se tornarão os Espaços InterAge, onde infraestrutura e recursos serão compartilhados por jovens, crianças e idosos, num misto de asilo, biblioteca e creche. 
O primeiro está em obras num antigo prédio residencial que quase foi à leilão, no bairro do Campolide e abre as portas no final deste ano. 
Também neste ano, 30 mil idosos em situação de risco passarão a ser monitorados 24 horas a partir de um centro gerenciado pela Câmara, Santa Casa, Segurança Social, Administração Regional de Saúde e Polícia. Seus agentes terão a chave da casa dos cadastrados —providência crucial numa cidade que tem ao menos 85 mil idosos vivendo sós ou com outros idosos. 
“Não são as pessoas que têm de se adaptar, mas as cidades. A primeira grande preocupação deve ser assegurar o envelhecimento ativo”, disse à Folha o presidente da Câmara Municipal (prefeito) Fernando Medina, 45. 
“A segunda grande questão é aumentar a autonomia dos idosos, em conforto e segurança. E a terceira, oferecer mais respostas com elevados graus de autonomia – inclusive com a institucionalização, quando necessária. Não é favor nem ajudinha.” 
Em certos casos, porém, uma ajudinha pode mudar a vida das pessoas. 
Alcântara, bairro próximo da ponte 25 de Abril, tem quase 10% de sua população composta por idosos que vivem sozinhos. 
As ruas estreitas e íngremes em alguns locais impedem a circulação de ônibus convencionais. Há três anos, apoiada por um supermercado local, a freguesia (divisão administrativa do município) criou o Azulinho. 
O micro-ônibus, adaptado para receber idosos, tem 17 lugares e faz um percurso sinuoso pelo bairro, garantindo o acesso dos moradores a mercado, posto de saúde e correios. 
Hoje, mais de 2.000 pessoas usam o Azulinho —são na maioria viúvas, que transformam o percurso num programa diário, nem sempre vinculado a compromissos. 
“É um boa maneira de combater a solidão”, diz o administrador da região, Davide Amado, 38. A manutenção do Azulinho custa € 25 mil  (cerca de R$ 101 mil) anuais, pagos pela freguesia. 
HETERODOXIA 
As cidades pequenas também testam suas receitas. Pouco mais de 200 km ao norte de Lisboa, no povoado de Gafanha do Carmo, freguesia do Concelho de Ílhavo, com 1.500 habitantes, um centro comunitário colocou pessoas com mais de 80 anos nas redes sociais, no YouTube e em programas de TV. 
O prédio espaçoso com orçamento de € 370 mil (cerca de R$ 1,49 milhão) para 2018, que provém principalmente da Segurança Social, não surpreende. Nas redes sociais, porém, o centro tem 37 mil seguidores e 200 vídeos protagonizados por alguns de seus 35 moradores. 
O mais visto, um clipe do hit “Wrecking Ball”, da cantora Miley Cyrus, apresenta vovôs e vovós maquiados e com camisetas brancas dublando a canção e lambendo o punho de bengalas. Teve 244 mil visualizações. O mais recente é uma paródia da brasileira Jojo Toddynho em “Que Tiro foi Esse”, no qual o tiro dá lugar a flatulência. 
Por trás das iniciativas estão um animador cultural e uma gerontóloga. Ângelo Valente, 34, e Sofia Nunes começaram adotando um gato, que só durou seis meses, mas revelou-se um facilitador de afetos —e uma demonstração de que era possível subverter as rígidas regras empregadas em instituições semelhantes. 
No próximo dia 12 de maio, eles vão reunir personalidades para refletir a velhice em 2068. A lista de participantes inclui o músico Pedro Abrunhosa, o ex-premiê de centro-direita Pedro Santana Lopes, a blogueira Mariana Cabral, o jogador de futebol aposentado Nuno Gomes e a líder do Bloco de Esquerda, Catarina Martins, entre outros. 
Quem recebe os visitantes na porta do centro é Vadio, cão que vivia na rua e foi adotado após acompanhar um passeio dos idosos e que hoje compartilha o espaço com Viana, um labrador que abandonou a função de cão-guia. 
O primeiro vídeo já tem cinco anos: a paródia de “Ai, se eu te pego”, de Michel Teló, já com o DNA irreverente. 
Valente admite que certas gravações causaram controvérsia, mas questiona: “A polêmica tem a ver com a idade das pessoas. Mas qual a idade limite para fazer humor?”. 
Sofia diz que o centro não é projeto de comunicação e que a dupla só quer o lema da instituição: Multiplicar a felicidade, dividindo-a. 
Mas também reconhece que nem todos aderem a tanta alegria: “Há pessoas que não conseguem se integrar, que não ficam felizes. No limite, sugerimos que busquem outra instituição. Mas tentamos tudo antes”. 
Valente e Nunes escalaram um trio para receber a reportagem: João Fernando Lopes Oliveira, um escriturário que sofreu um AVC e, aos 62, é o morador mais jovem do Centro; Ermelinda Caçador, 90, e Hilda Ferreira Marques, 84, que vive fora, mas diariamente participa das brincadeiras. 
Oliveira, que carrega uma pasta cheia de escritos, oferece os papeis aos visitantes e assina as cópias como se fossem documentos oficiais. 
Ermelinda é a moradora mais popular do centro desde que a estrela dos vídeos, Alfredo Miranda, morreu há um ano. Todos dizem gostar muito do local. 
Fotos dos moradores —muitas com adereços como nariz de palhaço, chapéu e óculos escuros— decoram as paredes, no que Nunes e Valente dizem ser uma tentativa de aumentar a autoestima dos moradores, cujos netos costumam se entusiasmar com o sucesso dos avós. 
“Eles ganharam um papel social que nunca tiveram”, diz a gerontóloga. 
Diante da pergunta meio óbvia do repórter sobre o que é ser velho, João contra-ataca: “Não estou velho. Estou sênior. Velho tem sabedoria”. 
Ermelinda complementa: “Se tiver juízo, tem…”.

 

 

 


 


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Fonte: (Paulo Markun - Folhapress)