Generosos genéricos

02/03/2018 | 09:57

 

Não há motivos para recear os remédios biossimilares, basta pesquisá-los e monitorá-los. 
A analogia entre remédios biossimilares e medicamentos genéricos não soa perfeita, mas tem sua utilidade. Qualquer pessoa pode entender que a lógica por trás dessas novidades é a mesma dos fármacos mais baratos, já consagrados, ainda que os modos de produzi-las difiram em boa medida. 
O tema esteve no centro do Fórum Medicamentos Biológicos e Biossimilares, realizado pela Folha. E o seminário deixou patente que há campo aberto para sucesso comparável ao dos genéricos. 
O paradigma da indústria farmacológica mudou nas últimas décadas. Antes, quase todos os remédios eram moléculas simples, de síntese química há muito dominada. 
Com o tempo, outros fabricantes chegaram ao mercado produzindo medicamentos mais baratos. Eles são vendidos só pelo nome do princípio ativo — os genéricos. 
Surgiram então os fármacos biológicos, de estrutura molecular bem mais complexa, que a biotecnologia produz com auxílio de outros organismos, como leveduras. Um dos exemplos pioneiros foi a insulina, para socorrer diabéticos. 
Essa primeira geração de biofármacos ainda era pouco complexa, se comparada ao que viria a seguir — os anticorpos monoclonais. Estes, que costumam ter o sufixo “mab(e)” (de “monoclonal antibody”, em inglês), vieram revolucionar o tratamento de vários tipos de tumor e doenças autoimunes. 
Não demoraram a surgir outros laboratórios capazes de produzir a mesma classe de moléculas. À diferença dos genéricos, não podem ser consideradas idênticas ao medicamento original, cujo processo de produção é mantido em segredo. São os chamados biossimilares. 
Debate-se agora se estes podem substituí-los ou não. Embora contenham o mesmo princípio ativo, rotas biológicas diversas para fabricação resultam em variações pequenas, que por sua vez podem modular o resultado terapêutico obtido. Por tal razão há especialistas contrários a tornar biofármacos e biossimilares intercambiáveis. 
Há bons motivos para cogitar prioridade aos segundos. Um deles advém do preço menor: como o Sistema Único de Saúde (SUS) depende de verbas finitas, seria uma maneira de levar remédios de ponta, caríssimos, para mais doentes. 
Há também a possibilidade de desenvolver a tecnologia no próprio país, com acordos entre governo, laboratórios e instituições. 
Não há por que recear os biossimilares. Basta pesquisá-los e monitorá-los com minúcia, para dar aos médicos o máximo de informação na hora de decidir a melhor conduta para seus pacientes. 

Fonte: (Folha de S.Paulo)