Estudo relaciona ansiedade a doença de Alzheimer

19/02/2018 | 09:15

 

Identificar pistas precoces do Alzheimer é um desafio que move cada vez mais cientistas, já que estratégias de cura avançam pouco nos laboratórios. Um grupo dos Estados Unidos tenta encontrar esses primeiros vestígios em outra complicação cada vez mais incidente e temida no planeta: a ansiedade. Segundo eles, o acúmulo da proteína beta-amiloide, considerado um dos pontos-chave do surgimento do Alzheimer, começa a correr no cérebro de ansiosos bem antes das limitações cognitivas e comportamentais da demência. Se identificado, portanto, funcionaria como um biomarcador preventivo. O estudo foi publicado recentemente na revista The American Journal of Psychiatry e, segundo os autores, pode melhorar estratégias de combate à doença neurodegenerativa. 
O trabalho conta com o auxílio de uma investigação maior, o Harvard Aging Brain Study (HABS), uma pesquisa observacional sobre idosos iniciada em 2010 nos Estados Unidos. Desse banco, a equipe selecionou 270 americanos, homens e mulheres, cognitivamente normais, com idade entre 62 e 90 anos e sem distúrbios psiquiátricos. Os participantes foram, então, submetidos a exames de imagem de base, comumente usados em estudos de Alzheimer, e a avaliações anuais com a Escala de Depressão Geriátrica de 30 itens (GDS), utilizada para detectar a depressão em adultos mais velhos. 
“Essa escala foi incluída como uma das medidas clínicas porque sabemos que a depressão é um fator de risco para o declínio cognitivo, embora os mecanismos biológicos que explicam essa associação ainda não sejam entendidos”, explica ao Correio Nancy Donovan, psiquiatra geriátrica no Brigham and Women’s Hospital e uma das autoras do estudo. A cientista conta que, em vez de olhar para a depressão como um todo, ela e os colegas optaram por investigar a ansiedade, um dos sinais depressivos. “Ao compará-los com outros sintomas característicos da depressão, como tristeza ou perda de interesse, os de ansiedade aumentaram com o tempo nos pacientes que demonstraram um nível mais alto de beta-amiloides no cérebro”, afirma. 
A equipe analisou os dados considerando três sintomas de depressão: apatia anedonia (falta de energia e capacidade de sentir prazer), disforia (mudança repentina de humor) e ansiedade. Todos os dados foram avaliados ao longo de cinco anos. Os cientistas também chegaram à conclusão de que níveis mais altos de beta-amiloide podem estar associados com sintomas de ansiedade crescente, e que esse fenômeno pode ocorrer 10 anos antes do surgimento do Alzheimer. “Nós hipotetizamos que a ansiedade pode ser uma manifestação neuropsiquiátrica da doença de Alzheimer precoce e que a acumulação da proteína dessa doença pode dar origem a uma depressão aumentada ao longo do tempo”, ressalta Nancy Donovan. 
Prevenção 
Para Luciano Talma, neurologista do Instituto Castro e Santos, em Brasília, o trabalho norte-americano utiliza uma via investigativa promissora. “É um tema que tem sido bem explorado nos últimos anos. Antes de desenvolver o comprometimento da doença, o Alzheimer tem seus biomarcadores, como o acúmulo de beta-amiloide. Os cientistas relacionaram esse aumento com os sintomas psiquiátricos. Essa é uma busca de possíveis sintomas precoces da doença que poderia ajudar em intervenções realizadas mais cedo”, afirma. “O objetivo de estudos como esse é identificar grupos que possam se beneficiar de tratamentos de prevenção, mostrando como as doenças neuropsiquiátricas podem ser consideradas um fator de risco para esse problema de saúde.” 
Nancy Donovan ressalta a aplicabilidade do seu estudo seguindo a mesma linha. “Em última análise, esperamos ser capazes de identificar subgrupos importantes de adultos de alto risco, mesmo antes do comprometimento cognitivo, com base em fatores biológicos, alterações de comportamento da beta-amiloide e sintomas neuropsiquiátricos”, diz. “Se mais pesquisas comprovarem a ansiedade como um sintoma precoce, a descoberta seria importante não apenas para identificar pessoas com a doença, mas também para iniciar o tratamento e potencialmente diminuir ou prevenir o seu desenvolvimento.” 
A cientista americana destaca, ainda, que um maior acompanhamento dos pacientes é necessário para determinar se os sintomas depressivos crescentes darão origem a depressões clínicas e estados de demência. O próximo passo da equipe será avaliar outros fatores que expliquem melhor a relação entre ansiedade e Alzheimer. “Será importante estudar possíveis efeitos recíprocos: maior depressão leva ao aumento da carga da beta-amiloide ao longo do tempo no estágio pré-clínico da doença de Alzheimer?”, questiona Nancy Donovan. 
Já com os atuais resultados, Luciano Talma acredita ser possível fazer um alerta sobre a importância dos cuidados com distúrbios de comportamento na população idosa. “Essas pesquisas reforçam a necessidade de tratamentos adequados para pacientes que sofrem desses transtornos, principalmente a depressão. Não só ela, também a hipertensão, a obesidade e outros fatores cardiovasculares que precisam ser bem tratados para evitar o surgimento de complicações maiores, como o Alzheimer”, explica. O especialista reforça, ainda, que os cuidados preventivos não se limitam a abordagens médicas. “É importante cuidar da alimentação, realizar a psicoterapia, ou seja, é um conjunto de fatores que fazem parte da prevenção desse problema de saúde”, lista.

Fonte: (PB Agora)