Vacinação: Desinformação alimenta histeria coletiva

22/01/2018 | 09:12

 

Um misto de despreparo e falta de planejamento das autoridades públicas aliado à desinformação da população explica em parte essa confusão em busca da vacina contra a febre amarela, que, nos últimos dias, resultou em filas gigantescas nos postos, brigas e até agressões a funcionários da saúde. 
Junta-se a isso uma boataria de que hospitais de São Paulo estariam cheios de doentes ou de que haveria mais mortes do que as divulgadas, e o descontrole se instala. 
Nas redes sociais, muitos culpam a "imprensa sensacionalista" pelo caos. Mas, a depender do que se vê, há grande descrença no que dizem as autoridades da saúde. 
Não é para menos. Basta voltar um ano atrás e lá está o ministro da Saúde, Ricardo Barros, dizendo que a situação da febre amarela estava "controlada" em Minas Gerais e que "a vigilância nos outros Estados era qualificada e agia de forma adequada para controlar os casos". 
Enquanto isso, a doença seguiu fazendo estragos em Minas e em outras regiões. 
Em 6 de setembro, Barros anunciou o fim do surto de febre amarela no país. No mês seguinte, surgiriam as primeiras mortes de macacos no Horto Florestal em São Paulo e deu no que deu. 
O Ministério da Saúde confirma 35 casos e 20 mortes por febre amarela nos últimos seis meses. Porém, só São Paulo e Minas computam mais do que o dobro disso. 
Em abril do ano passado, Barros também disse que não haveria fracionamento de vacina. No início deste mês, para dar conta do aumento da demanda, a medida tornou-se necessária. A dose fracionada protege da mesma forma que a dose padrão, mas por período menor. 
Enquanto isso, as falas das filas vão dando a dimensão da desinformação. Na última quinta (18), a Folha mostrou uma família que fugiu das longas filas em postos da região de Indianópolis, na zona sul de São Paulo, e foi buscar a vacina em Mairiporã. 
Ou seja, saiu de uma área segura, em que não há casos de febre amarela, em direção a uma região de alto risco, com 41 casos e 14 mortes. Nunca é demais lembrar que, após a imunização, o organismo leva dez dias para criar anticorpos que protegerão a pessoa da doença. 
Agora, com o anúncio de mortes na capital por reação à vacina, é preciso reforçar a comunicação pública para evitar que pessoas deixem de se vacinar por medo dos eventuais efeitos colaterais. 
Reações graves que podem levar à morte são raras. A incidência da doença viscerotrópica aguda, por exemplo, é de um caso a cada 400 mil doses aplicadas. Só na capital, 1,9 milhão de pessoas foram vacinadas (1,4 milhão somente na zona norte). 
Para minimizá-las, é importante uma triagem rigorosa, em que se pesem os riscos e os benefícios da vacinação em grupos mais vulneráveis, como os imunodeprimidos. 
Fato é que há tempos epidemiologistas e infectologistas alertam para o avanço da febre amarela e para a necessidade do aumento da cobertura vacinal. Se isso tivesse sido feito de forma gradual e organizada, a balbúrdia seria bem menor. 

Fonte: (CLÁUDIA COLLUCCI - Folhapress)