MT: 9,6 mil pacientes esperam por cirurgia

19/12/2017 | 07:53

Há 1 ano a empregada doméstica Maria Aparecida Pereira de Almeida, 44 anos, a “Cida”, do bairro Figueirinha, em Várzea Grande, aguarda por uma cirurgia de retirada de diversos miomas no útero. Durante a espera, o quadro de saúde dela piorou, desde que foi diagnosticada na saúde básica. Ela se sente fraca, perdendo muito sangue e preocupada. “Estou com anemia muito alta, não pode ficar assim, inclusive estou com hemorragia forte, trabalhando sem ter condições”, lamenta. Pior é que ela nem conseguiu ainda entrar formalmente na fila de espera por cirurgia pelo SUS, que, em Mato Grosso, tem mais de 9,6 mil pacientes. 
“Estou muito chateada com tudo isso porque, afinal de contas, com saúde não se brinca, não tenho como ficar esperando um ano, dois, três e pelo jeito que está eu ainda vou esperar por muito tempo. Nossa saúde está precária, o SUS está falido e eu estou muito revoltada com tudo isso, queria muito logo fazer essa cirurgia porque preciso trabalhar”, reclama. 
A situação encontrada em Mato Grosso é tão preocupante quanto a nacional. Conselho Federal de Medicina informa que a fila de espera para cirurgias eletivas no país chegou a aproximadamente 904 mil procedimentos. Nacionalmente, as intervenções mais esperadas são catarata, hérnia, vesícula e varizes. 
“Ainda que parciais, os números impressionam, já que os estados que prestaram informações representam metade de todo o volume cirurgias efetivamente realizadas na rede pública em 2016”, explica o presidente da autarquia, Carlos Vital. 
Só no ano passado, 1.652.260 cirurgias eletivas foram realizadas no SUS. 
Segundo ele, vários são os argumentos para tentar justificar o volume de pacientes à espera de uma cirurgia e todos eles têm a mesma origem: recursos finitos para administrar uma demanda que é infinita. 
Os dados mais atualizados da Secretaria de Estado de Saúde (SES) sobre a fila local são de junho. Naquele mês eram 9.627 pessoas, como foi informado ao Ministério da Saúde. A SES ressalta que esses números são dinâmicos, ou seja, podem aumentar ou diminuir. 
A presidente do Conselho Regional de Medicina de Mato Grosso, Maria de Fátima Carvalho, tem uma preocupação para além da quantidade de gente na fila. Segundo ela, não há uma organização para que se conheça a situação de saúde de cada um. “Alguns pioram, morrem e será que saem da fila? Precisa ser feita uma grande avaliação da situação”, propõe. 
Para ela, essas cirurgias não avançam principalmente porque faltam leitos de UTIs nas unidades hospitalares que têm centros cirúrgicos. A médica também ressalta que, durante a espera, a qualidade de vida dos pacientes fica comprometida, como no caso da empregada doméstica Cida, que tem hemorragias constantes. 
“Um paciente que aguarda cirurgia auditiva por exemplo, se for criança, pode perder tempo no aprendizado. Então não é somente o risco de morte”, ressalta. 
Crianças e adolescentes 
Um dado da pesquisa do CFM que impressiona muito é da quantidade de crianças e adolescentes que também estão na fila. São cerca de 70 mil de zero a 19 anos. 
Nesta faixa etária, a maioria precisa de cirurgia de amigdalas, adenóide, fimose, correção de estrabismo e outros procedimentos eletivos. 
Este número corresponde somente aos casos informados pelas secretarias de saúde de cinco estados e quatro capitais brasileiras e foram analisados pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). 
Das 70 mil crianças, mil ainda não fizeram 1 ano de idade. 
Outro lado 
Sobre o motivo de existir uma fila tão extensa, a SES alega que faltam investimentos na saúde em todos os níveis - federal, estadual e municipal. “Os investimentos estão diminuindo não só no setor público, como no privado e, em consequência, a criação de novos leitos vem diminuindo. Em Cuiabá, mesmo, o exemplo é o Hospital São Benedito, que depois de mais de 30 anos foi o primeiro hospital a ser inaugurado com a criação de novos leitos”, diz trecho da nota emitida pela Secretaria, ao ser questionada sobre o assunto. 
“O problema já começa com o próprio governo Federal, que desde 2007 não atualiza a Tabela SUS. Os valores pagos para a realização de procedimentos pela rede pública pelo SUS estão abaixo dos praticados no setor privado e isso faz com que diminua a oferta de serviços, como cirurgias, enquanto a demanda vem crescendo.” 
A SES alega ainda que “o contingente de brasileiros desempregados também tem aumentado e isso faz com que grande número de pessoas abandone os planos de saúde e migre para o SUS, o que só faz aumentar a pressão não só na hora da realização de cirurgias, mas por todos os serviços, que começam por consultas, exames, pré-operatório e pós-operatório”. 
Outro fator para existir a lista de espera é o envelhecimento da população, com o aumento de doenças degenerativas. 
Nos âmbito municipal, a falta de investimentos na atenção básica, onde acontece a medicina preventiva, também contribuiu para o surgimento mais tarde de problemas que só são corrigidos por meio de cirurgias. 
“Enfim, o problema da lista de espera por procedimentos é um problema nacional e foi exatamente isso que motivou o Ministério da Saúde a criar a Fila Única conforme a portaria Portaria GM 1294 de 25.05.17.”, encerra a nota da SES. 

Fonte: A Gazeta