MG: HC da UFMG - Centro dedicado a transplante de fezes

05/12/2017 | 08:11

 

Tratamento é voltado para pessoas com infecção por bactérias que causam doenças e que são recorrentes ou resistentes a antibióticos. 
O Hospital das Clínicas em Belo Horizonte criou o Centro de Transplante de Microbiota Fecal, que permite a colocação de bactérias "boas ou sadias" no intestino de pacientes com quadros de diarreia. Segundo a instituição, é o primeiro centro dedicado a este tipo de procedimento no país. 
O tratamento é voltado para pessoas com infecção por bactérias que causam doenças e que são recorrentes ou resistentes a antibióticos. O transplante fecal é feito a partir de uma solução composta por substrato fecal de pessoas sadias em pessoas doentes. 
De acordo com dados informados pelo hospital, o ser humano possui cerca de cem trilhões de bactérias só no tubo do intestino. São elas que formam a microbiota intestinal, também conhecida como flora intestinal, composta por bactérias benéficas e patogênicas -- que causam doenças. 
Umas delas, a Clostridium difficile, também conhecida como superbactéria, está presente na flora intestinal de até 20% dos adultos hospitalizados, levando a quadros de diarreia em até 5% deles. O transplante seria indicado para um grupo que não apresenta resposta satisfatória ou duradoura ao tratamento com antibióticos. 
 Bactéria 'Clostridium difficile', que pode ser resistente a antibióticos (Foto: V.Alounian/Science Translational Medicine)  Bactéria 'Clostridium difficile', que pode ser resistente a antibióticos (Foto: V.Alounian/Science Translational Medicine) 
Bactéria 'Clostridium difficile', que pode ser resistente a antibióticos (Foto: V.Alounian/Science Translational Medicine) 
“Quando a gente coloca uma microbiota normal, sadia, ela normaliza a microbiota do receptor e regulariza o quadro de diarreia, que seria intratável em alguns pacientes. Em 90% dos casos, após um transplante, a diarreia desaparece, conforme pesquisas em todo o mundo. Já é um consenso no mundo que é a solução”, afirmou o coordenador do Instituto Alfa de Gastroenterologia (IAG) do hospital, ao qual o centro integra, Luiz Gonzaga Vaz Coelho. 
Para realizar pesquisas e transplantes, o hospital tem um banco de fezes e está em fase de análise e seleção de pacientes para o primeiro procedimento de forma não-experimental. “Nas próximas semanas será feito o transplante. Tem um paciente sendo avaliado para ser submetido”, disse. 
A Hospital das Clínicas é ligado à Universidade Federal de Minas Gerais, e a pesquisa foi feita dentro do programa de mestrado da Faculdade Medicina. 
"Até o momento, em nosso país, há poucos relatos de transplante fecal. Apenas um estudo foi publicado no ano de 2015, descrevendo a experiência de 12 pacientes submetidos ao transplante no Hospital Albert Einstein, em São Paulo. Além disso, há registros no Hospital Vera Cruz, em Campinas, e em uma clínica em São José do Rio Preto (SP). No entanto, todos os casos foram isolados e de forma experimental", afirmou Coelho. 
Segundo ele, não há nenhum registro de um centro de transplante de microbiota fecal respaldado pelas rigorosas orientações dos órgãos internacionais como o do HC-UFMG. 
O coordenador destaca a excelência do centro, que está capacitado para selecionar quem pode doar por meio de exames criteriosos e analisar casos em que a intervenção pode ser feita. “O rigor da seleção dos doares, o preparo do material seguindo normas internacionais e a realização do procedimento sem nenhum custo para o paciente”, ressaltou. 
No momento, a busca de doadores de material fecal é feita de forma ativa pelos pesquisadores. Após a coleta, as fezes são processadas, e o material é armazenado em temperatura de -80°C, por cerca de seis meses. 
O coordenador afirma que será possível fornecer esse tratamento para outros hospitais de Belo Horizonte e também de outras cidades. “Um hospital pode nos contatar. Vamos lá, coletar as fezes do paciente e confirmar se a infecção é causada pela bactéria Clostridium difficile. Se for, o paciente pode ser submetido ao transplante”, explicou. O procedimento será como uma colonoscopia convencional acrescida da infusão da microbiota.

Autor: Flávia Cristini

Fonte: G1